Catarata e Glaucoma: O que são, como reconhecer e como tratar

O glaucoma e a catarata são duas das principais causas de diminuição e perda de visão a nível nacional e global. Para assinalar o Dia Mundial do Hospital e os 525 anos do Primeiro Hospital Público Nacional, o Prof. Dr. Pedro Menéres, Presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO), assina um artigo esclarecedor na edição de julho de 2026 da revista País Positivo, onde aborda a prevenção, os sintomas e os mais recentes avanços nos tratamentos destas patologias oculares.

Prof. Dr. Pedro Menéres

Prevalência da Catarata e Fatores de Risco

A catarata é uma das principais causas de diminuição e perda visual em Portugal e no mundo. O principal fator de risco é a idade. Na maioria dos casos, a catarata resulta de um processo natural de envelhecimento do cristalino a lente natural que temos no interior do olho. Existem, no entanto, outros fatores que podem acelerar o seu aparecimento, nomeadamente a exposição solar prolongada à radiação ultravioleta, a diabetes, o uso prolongado de corticosteroides, ou traumatismos oculares. Existem também formas congénitas, associadas a causas genéticas, infecciosas ou metabólicas.

Apesar de haver cataratas até em crianças, é uma patologia em que a incidência cresce sobretudo com os anos, contudo se há, por exemplo, diabetes ou traumatismos irá aparecer bem mais cedo. De realçar que a partir dos 70 anos de idade, a maioria das pessoas tem cataratas ou até já foram operadas às mesmas.

A nível global, esta patologia é responsável por uma grande parte dos casos de cegueira evitável.

O que é a Catarata e Como Explicar ao Doente

Costumo explicar aos doentes de forma simples: o olho funciona como uma câmara fotográfica. Tem duas estruturas que funcionam como lentes: uma das lentes naturais – o cristalino – está localizada atrás da íris, a parte colorida do olho.

A catarata corresponde à opacificação progressiva dessa lente. À medida que o cristalino perde transparência, a luz deixa de entrar de forma adequada e a visão torna-se progressivamente turva, como se a pessoa estivesse a olhar através de um vidro embaciado.

Os sintomas mais frequentes incluem visão envoada, maior dificuldade em ver ao longe ou ao perto, encandeamento com luzes fortes ou contra o sol, halos em torno das luzes – sobretudo à noite – alteração na perceção das cores, que passam a parecer mais amareladas ou desbotadas, e a sensação de necessidade frequente de mudar a graduação dos óculos, por visão insatisfatória para acompanhar legendas ou ver bem placas ao longe na estrada.A catarata é uma das principais causas de diminuição e perda visual em Portugal e no mundo. O principal fator de risco é a idade. Na maioria dos casos, a catarata resulta de um processo natural de envelhecimento do cristalino a lente natural que temos no interior do olho.

Quando Avançar para Cirurgia

A principal indicação para cirurgia é funcional: quando a catarata começa a interferir de forma significativa com a qualidade de vida do doente.

Se a pessoa deixa de reunir condições para conseguir conduzir com segurança, ler confortavelmente, trabalhar ou reconhecer rostos com facilidade, então está na altura de considerar cirurgia. Existem também indicações refrativas e situações em que a própria catarata pode originar complicações secundárias, incluindo glaucoma.

Tratamento Disponível

Ao contrário de outras doenças, a catarata tem cura e cura-se através de cirurgia.

O único tratamento eficaz para a catarata é cirúrgico. Não existem medicamentos, colírios ou óculos capazes de reverter ou travar a opacificação do cristalino.

A técnica mais utilizada atualmente é a facoemulsificação. Através de uma microincisão de cerca de 2 mm, utilizamos ultrassons para fragmentar e aspirar o cristalino opacificado. Em seguida, implantamos uma lente intraocular artificial no mesmo local. Na grande maioria dos casos, trata-se de uma cirurgia rápida, considerada segura em equipas experientes, realizada em ambulatório, sob anestesia tópica (com gotas) e sob apoio de medicação analgésica ou anestésica, se necessário.

Felizmente a evolução tecnológica e médica foi fantástica neste campo nas últimas décadas e os resultados são habitualmente muito bons. Naturalmente são necessários estudos pré-operatórios de elevada precisão e no pós-operatório é necessário colocar colírios (gotas) nos primeiros dias e evitar esforços físicos, poeiras e ventos, mas habitualmente é possível usar a visão quase de imediato.

Lentes Intraoculares

A escolha da lente intraocular deve ser individualizada, com base na biometria ocular, estilo de vida, necessidades visuais de cada doente e características de cada olho.

Felizmente também nas lentes intra-oculares ocorreram avanços muito significativos, com a possibilidade atual de tratar simultaneamente e na mesma intervenção os erros refrativos importantes. Este processo requer uma avaliação muito cuidadosa e um diálogo do médico com o doente relativamente às necessidades, expectativas e possibilidades.

Glaucoma: Definição, Causas e Sintomas

O glaucoma é um grupo de doenças oculares caracterizado por lesão progressiva e irreversível do nervo óptico. É uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo.

Na maioria dos casos, existe aumento da pressão intraocular, que danifica progressivamente as fibras do nervo óptico (que, do fundo do olho, transportam o sinal elétrico da visão ao cérebro).

No entanto, o glaucoma pode também surgir com pressões consideradas normais. Tem na realidade variadas formas, pode até ser agudo ou desencadeado por determinados medicamentos.

O glaucoma é frequentemente chamado de “ladrão silencioso da visão”, porque mais vezes evolui durante muito tempo sem dor e sem sintomas evidentes. Tem esse enorme desafio de ter de ser detetado atempadamente pois quando dá sintomas está já numa fase avançada e por vezes irreversível de perda grave da visão que podem ir até à cegueira irreversível.O glaucoma é um grupo de doenças oculares caracterizado por lesão progressiva e irreversível do nervo óptico. É uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo.

Avanços no Glaucoma

Nos últimos anos, assistimos a avanços muito relevantes no diagnóstico e tratamento do glaucoma. Estes avanços não dispensam uma observação regular da população pelo médico oftalmologista mas permitem um diagnóstico mais precoce com a observação do olho e do fundo ocular complementada com a medição da tensão ocular e diversos exames como os campos visuais ou o OCT – tomografia de coerência ótica, exames não invasivos, rápidos e auxiliadores do diagnóstico e seguimento.

Técnicas mais recentes com LASER e cirurgias com microdispositivos ajudaram também a lidar com os casos de Glaucoma, que pode igualmente ser muitas vezes tratado com sucesso com gotas diárias.

Apesar destes avanços, a mensagem principal mantém-se: no glaucoma, o que perdemos não recuperamos. Por isso, diagnosticar cedo e acompanhar de perto cada caso continua a ser a melhor forma de preservar visão.

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